Invisíveis: histórias que o nosso olhar deixa para trás
Categoria
Fotografia
Cliente
Dudu Gonçalves
Ano
2026
Na exposição Retratos Invisível, reúno fotografia, dança e escuta para abordar a vida de pessoas em situação de rua na Grande Vitória, no Espírito Santo.
Quantas vezes passamos por alguém dormindo na calçada e seguimos em frente sem imaginar a história daquela pessoa?
Foi desse incômodo que nasceu Retratos Invisível. Como fotógrafo e documentarista social, quis compreender quem eram as pessoas que eu encontrava nas ruas da Grande Vitória, no Espírito Santo. Antes de construir as imagens, precisei ouvir.
Entrevistei mais de 60 pessoas. Escutei relatos sobre perdas, rompimentos familiares, abandono e dependência de substâncias. Cada conversa revelou uma trajetória própria, com circunstâncias que não cabem em uma explicação única.
Existe um julgamento recorrente de que toda pessoa em situação de rua chegou a essa condição por causa das drogas. As histórias que ouvi mostraram uma realidade mais complexa.
Algumas pessoas relataram que a dependência havia desgastado os vínculos familiares e que suas famílias já não conseguiam sustentar os cuidados ou os custos de tratamento. Outras contaram que perderam os pais ainda na infância e não encontraram acolhimento entre os parentes. Também ouvi histórias de conflitos dentro de casa, de ambientes que se tornaram insuportáveis e de afastamentos que terminaram em desamparo.
Em alguns desses relatos, o uso de substâncias apareceu depois da ruptura familiar e da chegada às ruas. Por isso, reduzir todas essas vidas ao mesmo motivo apaga justamente aquilo que eu buscava conhecer: a história de cada pessoa.
A dança como expressão do que eu sentia
Para traduzir meu sentimento diante dessas cenas, convidei uma bailarina para participar das fotografias.
Sua presença representa a maneira como minha mente reage ao abandono. Os gestos e as poses dramáticas dão forma ao desconforto de ver pessoas dormindo nos cantos da cidade, expostas à sujeira, à passagem de animais e à indiferença de quem continua caminhando.
Na fotografia, o corpo da bailarina se curva junto à parede. Mais adiante, pessoas repousam sobre a calçada. Essa composição aproxima a expressão artística de uma realidade que continua existindo para além do enquadramento.
O primeiro olhar e aquilo que ele revela
Coloquei a bailarina em primeiro plano de propósito. A dança cria uma entrada visual capaz de despertar interesse e ampliar a circulação da exposição. É o elemento que atrai o olhar e convida o público a permanecer diante da fotografia.
Mas é ao observar o segundo plano que o sentido da obra se revela.
Ali estão os protagonistas de Retratos Invisível. Pessoas reais, com histórias, perdas, vínculos e lembranças. A composição provoca esse movimento de descoberta: primeiro, o público se aproxima pela bailarina; depois, percebe as vidas que dão à imagem sua força social.
Esse segundo olhar é o centro do trabalho. Ele pede que a atenção ultrapasse o elemento mais evidente da cena e alcance quem tantas vezes passa despercebido.
Com Retratos Invisível, compartilho o que essas conversas e encontros despertaram em mim. Quero que as fotografias abram espaço para perguntas, para escuta e para o reconhecimento da dignidade de quem vive nas ruas.
Cada pessoa retratada tem uma história que merece ser ouvida. A exposição é meu convite para que a gente pare, olhe com atenção e se disponha a conhecer.
Mantive as pessoas em segundo plano e fora de foco de forma intencional, buscando preservar suas identidades. A bailarina traduz, por meio do corpo e dos gestos, o sentimento que essas cenas despertam em mim. Ao fundo estão as vidas que motivaram o trabalho. O convite é perceber sua presença, refletir sobre suas histórias e reconhecer sua humanidade, com cuidado para não ampliar a exposição de quem já vive em situação de vulnerabilidade.



